Eventos e Comunidade

O papel do organizador como curador

Selecionando conversas que a comunidade precisa ter

15 de jan. de 2026·Ricardo Coelho

A grade do evento é lida pelo público como consequência das submissões e pelo organizador como reflexo do CFP, mas pra mim nenhuma das duas leituras descreve o que de fato aconteceu. A grade é artefato editorial, construído por decisões sobre quais propostas entram e quais adjacências o evento privilegia mesmo quando o mercado olha pra outro lugar. Entre a pilha de submissões aceitas tecnicamente e a agenda final existe um espaço de decisão que o organizador ocupa quer reconheça, quer não, e a qualidade desse espaço define se o evento produz conversa coerente ou apenas coleciona palestras.

A tentação operacional é tratar a curadoria como problema de ranking. Propostas são avaliadas por critérios técnicos e ordenadas por nota, com o corte na linha que o número de slots determina. O processo é defensável e auditável, reduz a carga política da decisão, e por isso a maioria dos eventos adota. Na minha avaliação, o custo é que o ranking otimiza cada palestra isoladamente e ignora o sistema que a grade forma em conjunto. Uma agenda composta pelas vinte propostas mais bem avaliadas tende a convergir aos temas em alta repetindo abordagens próximas, o que deixa de fora discussões que a comunidade precisa ter mas ainda não sabe que precisa. A soma de ótimos locais não produz ótimo global, e a grade resultante é previsível porque foi construída por otimização.

A curadoria como função editorial opera em outra camada. O curador começa pela pergunta sobre que conversas a comunidade precisa ter nos próximos seis a doze meses e usa essa tese como eixo de composição da grade. A ordem é invertida em relação ao ranking: a tese vem antes das propostas, e a seleção avalia em que medida cada submissão contribui pra construção da tese, além do mérito técnico individual. O custo da inversão é que o organizador precisa ter leitura informada do estado da comunidade, sabendo o que já está saturado e o que emerge sem vocabulário próprio, inclusive temas evitados por desconforto. Essa leitura é trabalho do curador e não se delega. É o que distingue quem desenha uma agenda de quem apenas empilha palestras.

A decisão mais difícil da curadoria é a exclusão deliberada de temas populares. Um evento de backend em 2026 sem metade da grade em IA generativa sinaliza escolha editorial explícita, e essa escolha gera custo imediato, já que patrocinadores perguntam e a concorrência preenche o espaço. A pressão pra seguir o mainstream é constante, e ceder é o caminho de menor resistência. O que um curador atento observa, porém, é que quando quinze eventos simultâneos cobrem o mesmo tema com as mesmas abordagens, o valor marginal de mais uma grade igual é próximo de zero, enquanto o valor de uma grade que abre espaço pra discussões que ninguém promove cresce na proporção inversa da saturação. Um evento que sobrevive por dez edições é quase sempre um evento que em algum momento recusou o óbvio.

A adjacência entre palestras é instrumento curatorial subestimado. Duas palestras boas em sequência errada produzem experiência pior do que qualquer uma delas isolada, e duas medianas em sequência deliberada podem produzir insight que nenhuma entregaria sozinha. O curador trabalha a grade como composição. A decisão sobre que tema abre o dia é diferente em natureza da decisão sobre que fechamento deixa o público com pergunta em aberto, e nenhuma se confunde com a calibração do meio do dia, quando o desafio é a palestra que aguenta o horário depois do almoço. Há ainda o par que cria tensão produtiva ao apresentar perspectivas conflitantes sobre o mesmo problema. Essa camada não aparece nas notas das propostas nem é capturada por critério de CFP. Costuma ser o ponto em que o evento ganha ou perde densidade.

O trade-off central da curadoria editorial é entre coerência e representatividade. Grade com tese forte tende a ter menos tracks e menos variedade, reduzindo a superfície de interesse do público. Grade representativa, que cobre o espectro da comunidade, dilui o eixo editorial e fragmenta a experiência, com cada participante montando sua própria conferência dentro da conferência. Eventos calibram diferente conforme o estágio: edições iniciais ganham com coerência forte que define identidade, edições maduras suportam mais representatividade sem perder caráter, e na minha análise as edições em declínio estão no ponto em que a representatividade já virou fragmentação.

A validação da curadoria não acontece na avaliação pós-evento imediata, acontece na edição seguinte. Uma grade bem curada gera submissões de temas que não existiam no CFP anterior, porque o sinal editorial pauta a comunidade e convida propostas alinhadas à tese. Uma grade por ranking produz o efeito oposto: as submissões da edição seguinte se parecem com as da anterior, porque o sinal foi o de que o evento aceita o que chegar bem avaliado tecnicamente. O organizador que observa o perfil das submissões ao longo de três edições lê, no próprio input do CFP, o efeito acumulado das suas escolhas, e esse feedback lento separa curadoria consciente de curadoria improvisada.

A função de curador é desconfortável porque exige assumir publicamente responsabilidade pelo que o evento conversa e pelo que se recusa a conversar. O organizador que delega isso ao ranking entrega o leme e depois estranha o rumo. Pra mim, o que a comunidade precisa é ponto de vista defensável sobre que conversas valem a pena agora, sustentado mesmo quando o mercado empurra na direção oposta.