Um usuário diante de um menu com quarenta e sete itens não está paralisado por preguiça. Está processando uma quantidade de informações que cresce com o número de alternativas, e o tempo que ele leva pra escolher pode ser calculado antes mesmo de abrir a tela. William Edmund Hick descreveu esse comportamento em 1952, no artigo On the Rate of Gain of Information publicado no Quarterly Journal of Experimental Psychology. A versão final, refinada um ano depois por Ray Hyman, e por isso chamada Lei de Hick-Hyman, estabelece que o tempo de decisão numa tarefa de escolha aumenta de forma logarítmica com o número de alternativas equiprováveis, e opera como uma das poucas leis empíricas consolidadas da psicologia cognitiva aplicável diretamente ao desenho de interfaces.
Costumo dizer que o log na equação importa mais do que parece à primeira vista, porque ele indica que o usuário não avalia as opções uma a uma, mas sim por subdivisões sucessivas, descartando grupos inteiros a cada passo. Isso explica por que um menu bem categorizado com quarenta itens pode ser mais rápido de navegar do que uma lista plana de doze, e por que a hierarquia de informação é um fator mais determinante do que a contagem bruta de elementos.
A aplicação ingênua da lei conduz ao erro mais comum que vejo em times de design: achar que o objetivo em si é reduzir cardinalidade. Para isto escondem funcionalidades em submenus profundos e colapsam filtros em drawers, à medida que removem opções que uma parcela real de usuários efetivamente usa. À primeira vista parece que o custo de decisão está sendo reduzido, mas está apenas sendo transferido pra outra dimensão, onde reaparece na forma de custo de descoberta, de navegação e de suporte. O sistema passa a exigir do usuário um modelo mental mais elaborado da própria estrutura, o que em produtos complexos gera a sensação de que a funcionalidade existe, mas ninguém consegue encontrar.
Creio que o mecanismo relevante é outro. A Lei de Hick se aplica por ponto de decisão. Um dashboard que apresenta dezoito gráficos simultâneos a um analista financeiro sênior não viola a lei se os gráficos estão organizados de modo que o usuário sabe, antes mesmo de olhar, em qual região da tela está a informação que ele procura. O que a lei pune é a decisão indiferenciada diante de alternativas equiprováveis e sem estrutura. Quando há frequência conhecida de uso, contexto, histórico ou hierarquia visual, o número efetivo de alternativas em avaliação ativa cai, e o tempo de decisão se comporta de acordo com essa cardinalidade reduzida.
A consequência prática pra arquitetura de informação é que o trabalho real está em manipular a estrutura das escolhas. Ordenação por frequência de uso, agrupamento semântico, defaults inteligentes, progressive disclosure e chunking visual são mecanismos de redução de alternativas em avaliação ativa sem redução de funcionalidade exposta. Em um caso recente de consultoria, um painel administrativo de SaaS expunha ao usuário vinte e seis ações numa barra lateral plana. Reorganizamos a disposição visual para separar as cinco ações que indicamos serem responsáveis por cerca de oitenta por cento do uso numa faixa superior dedicada, mantendo as demais visíveis em seções colapsáveis abaixo. O tempo médio até a primeira ação caiu de forma perceptível nos primeiros ciclos de uso, sem que nenhuma funcionalidade fosse removida e sem a necessidade de qualquer treinamento adicional.
Obviamente não existe almoço grátis. Reduzir alternativas visíveis acelera decisões frequentes, mas penaliza as raras, enquanto organizar por frequência favorece o usuário recorrente e desorienta o novato, que ainda não tem modelo da frequência. Padrões inteligentes aceleram o caminho comum, mas atrapalham quando o contexto foge do comum sem sinalização suficiente. Cada escolha de arquitetura otimiza um perfil de uso em detrimento de outro, e a decisão sobre qual perfil priorizar deve ser de produto, não de design. A Lei de Hick descreve o custo, mas não diz em qual usuário o custo deve incidir.
Há ainda uma outra questão raramente considerada: nem sempre o atrito é negativo. Interfaces que minimizam o tempo de decisão em tarefas individuais podem aumentar a frequência com que essas tarefas são iniciadas, até porque o custo de iniciá-las cai. Em produtos com economia de atenção, isso se traduz em engajamento. Em ferramentas operacionais, pode se traduzir em erro, porque decisões rápidas demais tendem a ser menos deliberadas. O dimensionamento adequado do tempo de decisão é, em alguns contextos, uma escolha deliberada de inserir atrito, e a lei também ajuda a calibrar onde esse atrito deve ser adicionado.
Não creio que a Lei de Hick deva ser considerada uma regra de design, mas uma descrição do comportamento cognitivo que o design encontra quando é confrontado com a realidade. Tratá-la como uma heurística trivial de redução produz interfaces mais limpas e menos úteis. Tratá-la como um modelo de custo produz interfaces que alocam e relocam a carga cognitiva de forma deliberada, transferindo para onde o sistema pode absorver e devolvendo ao usuário apenas a decisão que ele está equipado pra tomar no contexto em que ele está.