Tecnologia e Empoderamento

O abismo entre acesso e literacia tecnológica no Brasil

16 de jun. de 2025·Ricardo Coelho

A pesquisa TIC Domicílios 2024, do Cetic.br, registra que 84% da população brasileira acessa a internet. O indicador de conectividade significativa, que mede acesso, dispositivo, velocidade, frequência diária e competências digitais básicas, atinge 22%. Pra mim, a diferença entre 84% e 22% não é detalhe estatístico, mas o retrato de uma política pública que confundiu infraestrutura com capacidade.

O programa Computadores para Inclusão distribuiu 53 mil equipamentos até o fim de 2024, quase o dobro do ano anterior. O Wi-Fi Brasil contava com cerca de 20 mil pontos de internet gratuita em mais de 2,6 mil municípios. Os números são reais e o esforço logístico também. O problema é que a métrica de sucesso tende a ser equipamentos doados ou pontos instalados, não o que as pessoas conseguem fazer com o acesso recebido. Essa distância entre ter acesso e saber usar o acesso é o que separa conectividade estatística de inclusão digital efetiva.

A Anatel publicou em 2024 uma pesquisa sobre conectividade significativa com um dado difícil de contornar: apenas 30% da população possui habilidades digitais básicas, e menos de 20% alcança nível intermediário. Entre usuários com ensino superior, 80% reportam checar veracidade de informações online; entre usuários com ensino fundamental, o número cai pra 31%. Alterar configurações de privacidade, operação que profissionais de tecnologia consideram trivial, é reportada por 58% dos usuários com superior e por 18% dos com fundamental. A correlação entre escolaridade e competência digital é forte, e o problema da literacia tecnológica não se resolve dentro do domínio da tecnologia, mas no sistema educacional.

Na minha análise, essa constatação desloca o eixo da discussão. A narrativa dominante trata o problema como questão de engenharia de telecomunicações, de levar fibra a municípios remotos e instalar roteadores em escolas. Essas ações são necessárias e ninguém seriamente envolvido no tema as contesta. O que acontece é que elas atacam a camada mais visível e deixam intacta a camada que determina se o acesso vira valor real. Quem recebe um tablet e não distingue uma mensagem de phishing de uma comunicação legítima do banco não está incluído digitalmente em nenhum sentido operacional do termo. Está exposto a risco sem as ferramentas cognitivas pra navegar nele.

O caso das classes D e E ilustra a dinâmica. Aplicada a essas faixas de renda, a conectividade significativa despenca pra 3%. Três por cento. Isso num contexto em que o PIX se tornou o método de pagamento digital mais usado no país, com 84% de adoção entre usuários de internet. O que se observa é uma população de menor renda adotando ferramentas financeiras digitais por necessidade, empurrada pelo ecossistema de pagamentos, mas sem a base de competências que permitiria uso seguro e informado.

A Política Nacional de Educação Digital (Lei 14.533/2023) reconhece formalmente essa lacuna, mas promove educação digital de forma transversal, sem componente curricular obrigatório, depois que o dispositivo que previa obrigatoriedade foi vetado. A arquitetura institucional existe; o desafio está na implementação, que esbarra em formação de professores que muitas vezes não possuem eles mesmos as competências que deveriam ensinar.

Há um mecanismo cíclico operando. Serviços públicos e privados migram pra plataformas digitais assumindo a população conectada, e como a literacia não acompanha esse ritmo, o efeito prático é digitalização compulsória sem capacitação correspondente. Quem antes resolvia uma questão no INSS presencialmente agora precisa do Meu INSS pelo celular e recebe por PIX em vez de dinheiro. A transição não é optativa, e cada serviço que migra pro digital sem garantir competência mínima cria mais uma camada de exclusão disfarçada de modernização.

O custo do dispositivo é outra camada. Um smartphone com capacidade mínima pra operação produtiva custa entre R$ 1.000 e R$ 1.500, e com salário mínimo de R$ 1.518 em 2025 isso é entre 65% e 100% da renda mensal de um trabalhador na base da pirâmide. Quem mais precisaria de dispositivo adequado acessa a internet por smartphones de entrada, e a experiência se reduz a consumo passivo. Produção de conteúdo e aprendizado estruturado exigem patamar de equipamento que a renda não permite.

Na minha avaliação, o que se configura é um sistema de exclusão em camadas que se reforçam: acesso físico, qualidade do acesso, dispositivo adequado e competência. As três primeiras estão sendo parcialmente endereçadas; a última depende de um sistema educacional em adaptação, e os programas de formação atendem em escala insuficiente, com 10.582 pessoas formadas em 2024 num país com dezenas de milhões em déficit de competências básicas. Cada camada condiciona a seguinte, e política que atua em apenas uma produz resultado parcial que as métricas agregadas fazem parecer mais substantivo do que é.

Sistemas construídos sob a premissa de que o usuário possui competência digital básica excluem uma parcela da população que os números de penetração fariam supor incluída. O gap entre acesso e literacia é parâmetro de design que a indústria de tecnologia ignora, assumindo um usuário que existe nas métricas mas não na prática.

A questão que resta é se o país fecha essa distância antes que a digitalização compulsória transforme o déficit de literacia em mecanismo ativo de aprofundamento da desigualdade. Falta uma mudança de métrica, de contar pontos de acesso e equipamentos distribuídos pra medir competência adquirida e capacidade real de uso. Enquanto o indicador de sucesso for quantidade de computadores doados, a inclusão digital brasileira segue como operação logística bem-sucedida sobre um déficit educacional que ela não tem mandato pra resolver.