Os dados do ecossistema de startups apontam que o Sudeste concentra 36% das startups ativas, o Nordeste responde por 25,2% e as demais regiões somam 38,8%, com o Nordeste ultrapassando isoladamente o Sul pela primeira vez. O dado contraria a leitura inercial de que empreendedorismo tech no Brasil é um fenômeno paulistano com ramificações em Florianópolis e Porto Alegre, e obriga a tratar regiões periféricas ao eixo Rio-São Paulo como ecossistemas em si. Pra mim, o ponto que importa é que esses ecossistemas não replicam o modelo paulista em menor escala. Operam sob restrições específicas, sobretudo de acesso a capital em estágio avançado, densidade de investidores-anjo e proximidade a compradores corporativos, e isso obriga a decisões de produto e mercado diferentes desde o início.
O caso do Porto Digital em Recife é o mais documentado. O parque tecnológico reúne empresas em prédios restaurados do Recife Antigo, fechou 2024 com faturamento agregado de cerca de seis bilhões de reais e entrou pela primeira vez no Global Startup Ecosystem Report em 2025, ao lado de Florianópolis e São Paulo. O funding em estágio inicial em Recife cresceu 1.534% entre 2020 e 2024, puxado por rodadas como os 32 milhões de dólares captados pela Amigo Tech em 2024, e o parque opera hoje com 160 startups apoiadas em seus programas. A trajetória mostra que ecossistema periférico só se sustenta quando há articulação persistente entre universidade, governo estadual, entidades de classe e empresas âncora, até porque capital privado sozinho não financia o custo inicial de atração de talento e infraestrutura.
Campina Grande opera em escala menor, com densidade desproporcional ao tamanho populacional. A cidade responde por 27% das startups da Paraíba, foi classificada como a terceira mais inovadora do Brasil pelo Índice de Cidades Empreendedoras, e mantém a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba como núcleo de incubação há mais de três décadas. A UFCG aparece entre os maiores depositantes de patentes do país, e Nokia, Nubank e VTEX mantêm operações locais em função dessa densidade acadêmica. Na minha análise, o que sustenta o ecossistema é o compromisso institucional contínuo, mais do que captação pontual, e isso retém talento porque oferece custo de vida inferior ao das capitais litorâneas sem abrir mão de infraestrutura acadêmica competitiva.
O contraste com Florianópolis ajuda a isolar o que é replicável e o que depende de condições locais. A capital catarinense lidera o país em densidade de startups por habitante (cerca de 7,4 por mil) e tem o maior funding médio por startup do Brasil, acima de um milhão de dólares. A diferença em relação a Recife e Campina Grande está na composição do capital disponível e na proximidade geográfica a ecossistemas do Sul e do Sudeste, o que reduz o custo de captação em rodadas subsequentes. Nos ecossistemas nordestinos, a ausência relativa de fundos locais em Series A e B empurra startups maduras pra captar em São Paulo, o que gera o padrão de empresa fundada no Nordeste com sede fiscal migrada pro Sudeste no momento da escalada, drenando parte do valor gerado localmente.
Esse tipo de ecossistema opera em três camadas interdependentes, e a ausência de qualquer uma delas degrada o resto. Na formação, o que pesa é a presença de universidades com cursos de computação e engenharia que produzam talento em volume suficiente pra abastecer empresas locais sem competição direta com o Sudeste nos primeiros anos de carreira, condição que Campina Grande e Recife satisfazem pela UFCG e pelo CIn-UFPE. A infraestrutura institucional vem de parques tecnológicos, incubadoras e programas de aceleração financiados por estado, município e entidades empresariais, que oferecem custo de ocupação reduzido e acesso a mentoria nos estágios iniciais. A demanda é a camada mais frágil, até porque o viés do mercado brasileiro ainda privilegia fornecedores baseados no Sudeste, especialmente em contratos com grandes empresas.
O trade-off central de empreender fora do eixo é a relação entre custo operacional e acesso a capital e mercado. Custos de folha, ocupação e operação são menores em Recife, Campina Grande, Belém ou Fortaleza do que em São Paulo, o que estende o runway pro mesmo volume captado. Em contrapartida, cada rodada custa mais, até porque o fundador viaja repetidamente pra apresentar ao circuito de fundos concentrado no Sudeste, e o tempo médio pra fechar rodada tende a ser mais longo. A equação se fecha favoravelmente pra startups que operam com eficiência de capital superior à média e constroem produto com mercado endereçável nacional desde o início, e se deteriora pras que dependem de crescimento via queima intensiva de caixa. Não por acaso, o padrão nordestino é dominado por B2B SaaS e deep tech, que se adaptam à restrição, enquanto consumer app com necessidade de escala rápida permanece concentrado no Sudeste.
A descentralização observada nos dados recentes reflete também a saturação relativa do ecossistema paulista, com custos de folha e ocupação que empurram fundadores pra fora. Na minha avaliação, a sustentabilidade do movimento depende de resolver a camada de capital em estágio avançado localmente, seja via fundos regionais, seja via mudança na política de fundos nacionais quanto à localização das investidas. Enquanto essa camada permanecer concentrada no Sudeste, o padrão de startup fundada fora do eixo e migrada no momento da maturidade continuará drenando valor dos ecossistemas que a formaram, e a narrativa de descentralização permanecerá parcialmente verdadeira apenas na contagem de CNPJs.