Eventos e Comunidade

Call for Papers que atrai diversidade

Curando conteúdo além do mesmo circuito de palestrantes

22 de set. de 2025·Ricardo Coelho

A grade de um evento tech costuma se parecer demais com a do evento anterior e com a do concorrente do ano passado. Os mesmos dez nomes circulam entre cinco conferências nas mesmas faixas de horário, e a justificativa recorrente é que o Call for Papers recebeu poucas submissões fora do circuito. Pra mim, o diagnóstico está correto, mas a conclusão que vem em seguida está invertida. Um CFP que recebe apenas submissões do circuito conhecido está revelando o desenho do próprio CFP antes de tudo, e só depois o mercado disponível. A diversidade da grade é função direta do sistema de captação, e a oferta espontânea explica pouco do resultado.

O mecanismo que produz a repetição é previsível. O CFP é publicado em canais já frequentados por quem palestrou, com critérios que favorecem histórico de palestras anteriores e um formato que pressupõe familiaridade com o ritual de submissão. Quem está dentro submete com facilidade. Quem está fora muitas vezes nem sabe que o CFP existe e, como não reconhece o vocabulário do formulário, desiste antes de tentar. O resultado é um funil que filtra candidatos pela exposição prévia ao próprio funil, o que garante que cada edição reproduza a composição da anterior.

Na minha avaliação, diversidade de grade emerge de desenho ativo do processo de captação, seleção e acolhimento, sem depender de aberturas declaradas. O CFP é um sistema, e o output reflete os vieses do input e dos critérios de filtragem. Quando o organizador afirma que "recebemos todas as submissões que chegaram" e conclui que o resultado é neutro, ignora que o conjunto recebido já é produto de decisões anteriores, tomadas nos canais escolhidos e na linguagem adotada.

Um CFP divulgado apenas em listas de organizadores, grupos fechados de palestrantes veteranos e Twitter técnico captura exatamente a população dessas redes. Pra expandir o pool, a divulgação precisa chegar a comunidades regionais fora do eixo, grupos de afinidade voltados a mulheres, pessoas negras, LGBT+ e pessoas com deficiência em tecnologia, coletivos universitários, bootcamps e comunidades internas de empresas que formam profissionais seniores sem histórico público de palestra. A inserção do organizador nesses espaços precisa ser anterior ao momento do CFP, sob pena de a divulgação ser lida como extrativa.

O formulário também filtra. A maioria dos CFPs pede título, abstract, bio e histórico de palestras anteriores, e o campo de histórico funciona como filtro oculto que desqualifica quem nunca palestrou. Torná-lo opcional altera a taxa de submissão de candidatos de primeira viagem de forma mensurável. Substituir histórico por um vídeo de dois minutos explicando a proposta permite avaliar capacidade de comunicação sem exigir credencial prévia, e muda o perfil de quem completa a submissão. A linguagem importa: termos como keynote, track, deliverable e learning outcomes operam como sinalização de pertencimento. Um formulário em português direto, com exemplos do que conta como proposta válida, reduz a fricção pra candidatos que nunca se viram como palestrantes.

Na seleção, um comitê composto pelas mesmas pessoas do circuito tende a reconhecer como relevante o que se parece com o que já foi apresentado. A diversidade do comitê é pré-condição pra diversidade da grade, e a blind review, em que o avaliador vê a proposta sem nome, bio ou histórico do proponente, corrige parte do viés de reconhecimento. Ela é imperfeita, porque sinais de familiaridade vazam no estilo do texto, mas reduz a preferência por nomes conhecidos. O trade-off é o custo de coordenação adicional e a perda de informação útil sobre adequação do palestrante ao formato, o que exige uma segunda fase de avaliação após a seleção técnica.

E tem ainda o acolhimento. Selecionar um palestrante de primeira viagem e entregá-lo ao evento sem suporte reproduz o gargalo de outra forma. A pessoa aceita, mas ao perceber a distância entre sua experiência e a do circuito, cancela ou apresenta abaixo do que seria capaz porque ninguém a preparou pro formato. Eventos que levam diversidade a sério criam estrutura de mentoria entre seleção e palco, emparelhando novos com veteranos que revisam slides e simulam perguntas. O custo é real, três a cinco horas por palestrante novo, e o retorno é um pool ampliado de palestrantes que voltam como veteranos na edição seguinte.

Na minha análise, um CFP desenhado pra diversidade também melhora a qualidade média das propostas aceitas, porque força o comitê a avaliar ideias com as reputações fora de cena. Em um CFP convencional, um palestrante conhecido com abstract fraco é aceito por inércia, e um desconhecido com abstract forte é rejeitado por ausência de sinal secundário. A blind review e o descarte do histórico invertem essa dinâmica, e o conteúdo final tende a ser mais original, porque propostas que dependiam apenas da reputação do autor perdem o suporte implícito. A grade fica menos previsível, e a previsibilidade era exatamente o sintoma que o organizador reclamava no início.

Se a grade do evento se parece com a do ano passado, o ponto de intervenção está nas decisões que definem quem submete, à frente do comitê de seleção ou da cota declarada. Canais, linguagem do formulário, campos exigidos, composição do comitê e estrutura de acolhimento formam um sistema, e o output desse sistema é a grade. Alterar a grade exige alterar o sistema, e a maior parte das alterações tem custo de coordenação baixo e efeito acumulativo entre edições, na medida em que cada novo palestrante formado amplia o pool pro CFP seguinte.